Diferentemente da escrita, a leitura vacila. O vacilo não é o erro. O vacilo é o escorregar, é o desestabilizar, é o cambalear, é a oscilação, a perplexidade e a hesitação. É o reconhecimento de que não se está totalmente certo ou totalmente verdadeiro.
Recorre-se a métodos, porque se sabe que a leitura está para além do próprio livro, do próprio leitor e do próprio escritor. Ela é, por que vacila. Sem o vacilo, ela se limita ao primeiro passo da realização de um exercício. O vacilo permite que esta mesma leitura não se estruture, mas se permita; não se direcione, mas se abra em feixe de possibilidades de agenciamento. Não com o escritor, mas com a obra em si e tudo que a cerca, como o tema, os campos, os argumentos e as referências. O escritor já não é mais obra desde o momento que este escreveu o seu último “ponto final”. O método serve para afastar as várias potências no texto, para priorizar, disciplinar uma só, aquela que quer se encontrar com a verdade. Ele tenta instrumentalizar o leitor a reconhecer no texto o verdadeiramente dito ou o que há de verdadeiro, quando nem a própria Verdade pode ser encontrada. Devíamos pensar o método não como guia e modelo, mas como instrumento de aproximação que só serve quando tentamos nos afastar da leitura do texto, e objetivá-la em uma tarefa.
É o agenciamento leitor-obra que permite novas articulações, ou desestabilizar antigas conexões conceituais. E o conceito só é importante naquilo que se articula, nas relações que estabelece. Sem a articulação, sem a conexão, sem o movimento do fora de si, o conceito é o vazio do filósofo, que afastado do material, estabelece a sua ponte com o mundo supra-lunar. O mundo supra-lunar é feito de conceitos puros e por isso é estéril, imaterial e impossível. São as relações entre os termos que estabelecem a materialidade do visível e do invisível no mundo em que vivemos.
O leitor está exposto a tudo aquilo que a obra é. Se o escritor expõe um processo, um delírio e uma subversão da linguagem que já não é mais ele, o leitor se encontra perplexo e ingênuo, e ingenuamente tenta descobrir jeitos de reverter essa situação, tentando reencontrar uma linguagem perdida que não pode ser reconstruída, pois é própria do escritor. É uma língua menor, inventada e que ao atacar, renova a própria linguagem. Aquele que escreve, nem sempre é escritor. Todos que lêem são leitores. E por isso, se existem poucos que podemos dizer que são escritores, todos podem ser leitores.
Texto de referência: Métodologia filosófica, de Dominique Folscheid e Jean –Jaques Wunenburger.
Inspirações Extras: “A literatura e a vida” de Gilles Deleuze, “Para não ler ingenuamente uma tragédia grega” de Rachel Gazolla e “Ize of the World” música do The Strokes.
Inspirações Extras: “A literatura e a vida” de Gilles Deleuze, “Para não ler ingenuamente uma tragédia grega” de Rachel Gazolla e “Ize of the World” música do The Strokes.

Um comentário:
Oi mô! Seu texto me lembrou uma discussão que tenho na amizade queé o medo do estranho, tal qual o vacilar que permite o devir e esse algo que não se sabe bem o que é, que surge, as vezes faz com que as pessoas retraiam, ou se esquivem do novo, e por isso, talvez, recorram a métodos, modos seguros de encarar a realidade, ou mesmo a escrita. Interessante que por mais que queiramos controlar as coisas, mesmo uma leitura, as coisas acontecem na relação e isso é lidar com o imprevisto.
Achei interessante também o conceito, que não sei se seu, de "mundo supra-lunar", fiquei me perguntando porque aquelas características foram nomeadas assim?
Ah, e quanto a idéia de escritor, significa que poucos o são por que? Porque devem ser criativos para criar uma escrita própria? E essa escrita já não é mais ele apesar dele ja ter criado, por que? Porque já foi o leitor que se apropriou de sua escrita?
Bom, geralmente viajo no que as pessoas escrevem e faço os questionamnetos, meio para dar pano para manga à discussão, espero que não me interprete mal. De qualquer forma, achei o texto compreensível sim, e as questões foram mais para saber de onde vieram e para onde vão estas e demais idéias. Bjokas e inté o próximo texto. No aguardo...
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