segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Defronte das duas faces do saber/fazer científico ou a ciência e o movimento.

É preciso enxergar o processo de construção da Ciência de frente. Abaixo dele, só enxergarmos a dureza das verdades e dos métodos, das soluções e das regras. Acima estamos fadados ao conformismo metafísico, a agonia do niilismo e o distanciamento da epistemologia.

O primeiro engano é olhar e afirmar que há uma Ciência. Um lugar onde os métodos são incontestáveis e a natureza é simples para todo o tipo de problema. Não há esse lugar. Tanto a física quântica e a improbabilidade fenotípica biológica quanto às ciências sociais puderam perceber o incômodo de persistir em dogmas antigos, que não previam a complexidade dos problemas que lidavam.

De frente, podemos dizer que são duas as posições que o saber cientifico coloca para os seus comandados quando se refere à obtenção do saber. A ciência busca saber, um saber que assuma um status de verdade. Essa verdade tende a ser retratada como limpa, pura e incorruptível. Não se atrela ao julgamento de valores das emoções, tampouco as incertezas dos elementos perceptíveis e sensoriais daquilo que não é o seu objeto, nem do que o cerca. A verdade é racional.

Na primeira postura, a ciência se percebe acabada, construída. Ela se afirma também naquilo que não merece ser apreciado do seu processo de constituição, afinal o que ela produz já foi provado, é fato, é verdade, e aí está constituído, independente dos meios. Dogmas, verdades e instituições, são tudo aquilo que nós fazemos passar como fato consumado.

Na segunda, a ciência estar por constituir-se, desprendendo-se dos desnecessários, e ainda está a se questionar sobre efetividade, produtividade, eficiência e validade. Esta ainda precisa de provas, testemunhos e cúmplices capazes de se associarem e comprarem o seu projeto de verdade. Sim, é necessário o capital. Ou se compra uma solução ou se investe em uma tentativa. Mas, com certeza, ele está lá ávido pelo retorno e sedento por poder.

O segundo erro é achar que tais posturas são opostas. Elas são complementares, mesmo que pareçam contraditórias, destoantes. Parece ser próprio do saber científico, essas posturas. Mas quando entram em jogo as múltiplas relações de poder em que este saber se encontra, torna-se compreensível essa tentativa de naturalização da “Verdade”, tática para a manutenção da dominação.

A ciência é construção. Ela se move. Age tanto na luz das mais brilhantes notas dos cadernos da razão como no obscurantismo das vontades, nas incertezas dos desejos, nas ilusões das percepções, na impulsividade das sensações e nos embaçados motivos humanos.

Ela não reflete nada, assim como o qualquer conhecimento, ela nos refrata.

Texto de referência: Abrindo a Caixa Preta de Pandora de Bruno Latour.
Inspirações Extras: “Nantes”, “Guyamas Sonora”, “The penalty” e “Untitled”, músicas do Beirut.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Impressões sobre o que pode vir a ser um leitor ou a leitura e o vacilo.

Diferentemente da escrita, a leitura vacila. O vacilo não é o erro. O vacilo é o escorregar, é o desestabilizar, é o cambalear, é a oscilação, a perplexidade e a hesitação. É o reconhecimento de que não se está totalmente certo ou totalmente verdadeiro.

Recorre-se a métodos, porque se sabe que a leitura está para além do próprio livro, do próprio leitor e do próprio escritor. Ela é, por que vacila. Sem o vacilo, ela se limita ao primeiro passo da realização de um exercício. O vacilo permite que esta mesma leitura não se estruture, mas se permita; não se direcione, mas se abra em feixe de possibilidades de agenciamento. Não com o escritor, mas com a obra em si e tudo que a cerca, como o tema, os campos, os argumentos e as referências. O escritor já não é mais obra desde o momento que este escreveu o seu último “ponto final”. O método serve para afastar as várias potências no texto, para priorizar, disciplinar uma só, aquela que quer se encontrar com a verdade. Ele tenta instrumentalizar o leitor a reconhecer no texto o verdadeiramente dito ou o que há de verdadeiro, quando nem a própria Verdade pode ser encontrada. Devíamos pensar o método não como guia e modelo, mas como instrumento de aproximação que só serve quando tentamos nos afastar da leitura do texto, e objetivá-la em uma tarefa.

É o agenciamento leitor-obra que permite novas articulações, ou desestabilizar antigas conexões conceituais. E o conceito só é importante naquilo que se articula, nas relações que estabelece. Sem a articulação, sem a conexão, sem o movimento do fora de si, o conceito é o vazio do filósofo, que afastado do material, estabelece a sua ponte com o mundo supra-lunar. O mundo supra-lunar é feito de conceitos puros e por isso é estéril, imaterial e impossível. São as relações entre os termos que estabelecem a materialidade do visível e do invisível no mundo em que vivemos.

O leitor está exposto a tudo aquilo que a obra é. Se o escritor expõe um processo, um delírio e uma subversão da linguagem que já não é mais ele, o leitor se encontra perplexo e ingênuo, e ingenuamente tenta descobrir jeitos de reverter essa situação, tentando reencontrar uma linguagem perdida que não pode ser reconstruída, pois é própria do escritor. É uma língua menor, inventada e que ao atacar, renova a própria linguagem. Aquele que escreve, nem sempre é escritor. Todos que lêem são leitores. E por isso, se existem poucos que podemos dizer que são escritores, todos podem ser leitores.

Texto de referência: Métodologia filosófica, de Dominique Folscheid e Jean –Jaques Wunenburger.
Inspirações Extras: “A literatura e a vida” de Gilles Deleuze, “Para não ler ingenuamente uma tragédia grega” de Rachel Gazolla e “Ize of the World” música do The Strokes.

Enfim, começou a jornada.

A partir de hoje, uma quente e abafada segunda-feira do dia oito de dezembro de 2008, começa minha jornada de estudos para a prova de seleção de mestrado. São quinze textos que servem para dar base a uma dissertação com um tema proposto no dia da avaliação , exatamente daqui a um mês. O objetivo desse blog é auxiliar na construção dessa minha redação já que tenho alguns problemas com construir escrita menos complicada e lógica argumentiva mais coesa. O que acompanharemos são pequenas resenhas desses quinze textos.

O desafio está lançado.